Meu celular toca. Atendo. Ninguém fala, desligo. Toca de novo. O aparelho do homem ao lado também toca. O da mulher ruiva também. Ao mesmo tempo todos tocam. Outro e outro. Vários toques no ar. Ficando alto. Mais alto. Ensurdecedor. O que está acontecendo? Um aparelho se espatifa no chão, na minha frente. Quem jogou? O quê? Mais um, outro, vários celulares começam a cair com uma velocidade espantosa e espatifam-se no chão. Um acerta meu ombro, dói muito. Corro para um lugar seguro, a marquise de um prédio. Peças por toda parte. Olho para o céu. Não sei de onde estão vindo. Vários, de formatos, tamanhos e cores diferentes. Todos tocando, alto, muito alto. Toques de todos os lados. Minha cabeça vai explodir. Um líquido viscoso corre pelo meu pescoço, é sangue. Meus ouvidos estão sangrando. De repente silêncio. Não ouço mais nada.
Chuvas
15 15UTC Julho 15UTC 2007
15 15UTC Julho 15UTC 2007
− Ei, Pereira olha aquele ali, parece suspeito, anda desconfiado, olhando para todos os lados. Vamos checar?
− Ai tem. Vamos lá, mas dessa vez eu enquadro.
− Certo.
− Você ai, é você mesmo, aqui é a policia, levanta as mãos devagar.
− Mas eu na fiz nada.
− Cala a boca. Encosta na parede, abre as pernas, rápido, acha que estou brincando? Não corre! Tobias corre atrás dele. Desgraçado.
− Parado ai seu viado, se eu te pegar…
∙∙∙
− Que merda Tobias mais um? É o quarto essa semana, e hoje ainda é terça.
− Mas não fui eu que atirei, ele estava fugindo e eu estava atrás, de repente ouvi barulho de tiro e o desgraçado caiu duro no chão. Foi bem na nuca.
− Se não foi você quem foi então?
− Não sei.
− Ouviu? Mais tiros, vai chamar reforço! De onde estão atirando?
− Olha um 38 no chão.
− De onde veio?
− Caiu do céu.
− O quê?
− Do céu! Mais um, e outro, olha tá caindo arma pra todo lado. Todo tipo de arma, olha lá, rifle, espingarda.
− Que merda é essa?
− Tá chovendo arma. E não é só aqui, olha, tá caindo em todo lugar.
− Bala também.
− O quê? É muito barulho, não ouvi.
− Bala também. Olha só a minha perna. Levei um tiro do céu.
− Corre.
− …
− Levanta, vai levanta. Mas o que…?
− Meu peito, tomei um tiro no peito… não consi… respi…
− Por quê você está rindo?
− Deus cansou, tá dando tiro… em todo mundo.
15 15UTC Julho 15UTC 2007
Um barulho estranho no ar. As pessoas se assustam. Não sabem o que está acontecendo. De repente um objeto acerta a cabeça de um homem, derrubando-o. Logo outros começam a cair. Parecem livros. Causam grandes estragos. As pessoas correm desesperadas. Carros batem. Caos total. Feridos caídos no chão. Um estrondo contínuo no ar. Alguns mortos. São livros grandes e grossos, todos iguais. São Bíblias! “Está chovendo Bíblia”, um grita, uma acerta sua nuca, calando-o. Outro grita: “É a vingança de Deus!”, estava debaixo de uma cobertura de metal que desmoronou com o peso das bíblias. Um louco cínico que viu tudo grita: “Morreu pelo peso da Palavra”, e ri, chora, começa a cantar hinos de louvor, sai de baixo da marquise de concreto em que estava e começa a recolher alguns volumes, logo está coberto, esmagado. A chuva continua, o volume de bíblias vai crescendo, cobrindo tudo. Todos sumiram, foram esmagados. Não vai parar de chover até que tudo esteja coberto. Tudo.
